O cenário cultural brasileiro perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas. Haroldo Costa, ator, diretor, comentarista de carnaval e autor de vasta obra, faleceu no último sábado (13), no Rio de Janeiro, aos 95 anos. Sua partida marca o fim de uma era para muitos que acompanharam sua trajetória multifacetada e sua incansável dedicação à arte e à cultura popular brasileira. Conhecido por sua inteligência perspicaz e profundo amor pelo carnaval, Haroldo Costa enfrentava problemas de saúde decorrentes da idade avançada, tendo passado por internações recentes. A notícia de seu falecimento, confirmada pela família, ressoa profundamente no meio artístico e carnavalesco, onde ele deixou um legado indelével. Sua contribuição se estende desde o pioneirismo no teatro negro até a curadoria de exposições, sempre com o objetivo de valorizar a identidade nacional.
Os primeiros passos e o pioneirismo no teatro
Nascido na capital fluminense, Haroldo Costa iniciou sua jornada profissional no palco, um caminho que o levaria a se tornar um dos grandes nomes da cena artística brasileira. Foi no antigo Teatro Experimental do Negro, fundado pelo visionário Abdias do Nascimento, que ele deu seus primeiros passos como ator. Este grupo, de importância histórica inestimável, marcou a vida de Haroldo ao colocá-lo em contato com talentos que viriam a moldar a televisão e o cinema nacional, como Ruth de Souza, Grande Otelo e Milton Gonçalves. Juntos, participaram da montagem de “O Filho Pródigo”, um marco em sua formação artística. Seu talento rapidamente o destacou, culminando no papel de protagonista da célebre peça “Orfeu da Conceição”, um feito que lhe garantiu o reconhecimento como o primeiro ator negro a pisar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Esse momento não apenas solidificou sua carreira no teatro, mas também quebrou barreiras significativas, abrindo portas para futuras gerações de artistas negros no Brasil.
Da direção à televisão: talentos por trás das câmeras e na tela
A versatilidade de Haroldo Costa não se limitou aos palcos. Sua trajetória incluiu passagens marcantes pela televisão, onde inicialmente se destacou nos bastidores da TV Globo. Na emissora, atuou como diretor de musicais e, posteriormente, como diretor e jurado de programas de auditório, emprestando seu talento a atrações que se tornaram ícones da cultura popular brasileira. Grandes nomes como Dercy Gonçalves, Chacrinha e Moacyr Franco foram alguns dos artistas que trabalharam sob sua direção, testemunhando sua capacidade de gerenciar e inspirar. Mais tarde, ele próprio brilharia na frente das câmeras em produções televisivas. Em 1999, integrou o elenco da aclamada minissérie “Chiquinha Gonzaga”, escrita por Lauro César Muniz, interpretando o personagem Raymundo da Conceição. Anos depois, em 2012, voltou a atuar em outra minissérie da Globo, “Suburbia”, de Paulo Lins e Luiz Fernando Carvalho, dando vida ao personagem Aloysio. Sua presença na tela, embora pontual, era sempre notável, reforçando sua habilidade de transitar entre diferentes formatos artísticos com maestria.
A alma do carnaval carioca
Se havia uma paixão que definia Haroldo Costa com intensidade, era o carnaval. Para ele, a festa mais popular do Brasil era mais do que uma simples celebração; era uma expressão da identidade nacional, a essência do povo brasileiro. Essa convicção, que herdou do pai carnavalesco, o acompanhou por toda a vida e se manifestou em diversas frentes. Haroldo integrou o corpo oficial de jurados dos desfiles organizados pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), uma função de grande responsabilidade e prestígio. Sua ligação com as escolas de samba era profunda, especialmente com o Salgueiro. Segundo ele próprio, em 1963, após um desfile memorável da agremiação, ele decidiu abrir mão de sua função como jurado, tornando-se um torcedor apaixonado da escola. Além de jurado da Liesa, também foi um nome constante no corpo de jurados do renomado Estandarte de Ouro, um dos prêmios mais importantes do carnaval carioca, onde sua expertise e olhar crítico eram altamente valorizados. Sua voz era respeitada e sua análise, aguardada por amantes do carnaval.
Escritor e produtor cultural
Além de sua atuação direta nos desfiles e nos palcos, Haroldo Costa perpetuou seu amor e conhecimento pelo carnaval por meio da escrita. Ele foi autor de diversos livros que se tornaram referências essenciais para o estudo e a compreensão da cultura carnavalesca carioca. Entre suas obras mais notáveis estão “Salgueiro: Academia de Samba” (1984), um mergulho na história de sua escola do coração; “100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro” (2001), um panorama histórico da festa; e “Ernesto Nazareth – Pianeiro do Brasil” (2005), que explora a vida e obra do compositor sob uma ótica única. Sua contribuição literária enriqueceu significativamente a bibliografia sobre o tema. Não satisfeito em apenas escrever, Haroldo também dedicou-se à produção de grandes espetáculos musicais que celebravam o samba, mostrando mais uma vez sua capacidade de unir diferentes expressões artísticas. Em um de seus últimos grandes trabalhos, em 2023, assinou a curadoria da exposição “Heitor dos Prazeres é meu nome”, realizada no CCBB-Rio, em parceria com Raquel Barreto e Pablo León de La Barra, evidenciando seu compromisso contínuo com a valorização da arte e da cultura brasileira até o fim de sua vida.
A despedida de um ícone
Homenagens e o adeus no Salgueiro
Haroldo Costa, que enfrentava problemas de saúde relacionados à idade avançada e havia passado por internações recentes, deixou um vazio imenso no cenário cultural. Sua morte no sábado, dia 13, no Rio de Janeiro, gerou uma onda de consternação e homenagens por parte de artistas, colegas e admiradores. O velório será realizado na quadra da Acadêmicos do Salgueiro na segunda-feira, dia 15, um local de profunda representatividade para Haroldo. A escolha do espaço reflete não apenas sua paixão pela escola, mas também o profundo vínculo que ele estabeleceu com a comunidade carnavalesca ao longo de décadas. Espera-se que o adeus seja um momento de celebração de sua vida e de seu legado, reunindo aqueles que foram tocados por sua arte, sua sabedoria e seu inabalável amor pela cultura brasileira. Sua partida, embora dolorosa, reforça a importância de sua obra e de sua visão para as futuras gerações de artistas e pensadores.
Legado duradouro
A partida de Haroldo Costa encerra um capítulo importante da história cultural brasileira. Contudo, seu legado multifacetado como ator, diretor, autor e inigualável comentarista de carnaval permanecerá vivo. Ele não foi apenas um observador, mas um participante ativo e apaixonado na construção e preservação da identidade artística nacional. Sua contribuição para o teatro, a televisão e, especialmente, para o universo do samba e do carnaval, estabeleceu um padrão de excelência e dedicação. Haroldo Costa será lembrado como um gigante que, com sua arte e intelecto, celebrou e interpretou a riqueza da cultura brasileira, deixando um testamento de inspiração para todos.
Fonte: https://g1.globo.com