A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta terça-feira a segunda fase da Operação Unha e Carne, um desdobramento crítico que investiga o vazamento de informações sigilosas da Operação Zargun diretamente para membros do Comando Vermelho. Esta nova etapa trouxe à tona acusações graves, colocando sob os holofotes figuras de alto escalão. Um dos principais alvos das buscas é o deputado estadual licenciado Rodrigo Bacellar, atualmente presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Além das ações contra o parlamentar, a operação culminou na prisão de um desembargador federal, Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), reforçando a dimensão e a complexidade desta investigação que abala as estruturas do poder.
A intensificação da Operação Unha e Carne
A segunda fase da Operação Unha e Carne representa um avanço significativo nas investigações sobre a infiltração de uma das maiores facções criminosas do Brasil, o Comando Vermelho, em esferas de decisão pública. A ação visa desmantelar uma rede que supostamente repassava dados confidenciais de procedimentos policiais, comprometendo a segurança e a eficácia das operações de combate ao crime organizado. As apurações apontam para um esquema de vazamento que, ao tornar públicas informações estratégicas da Operação Zargun – um braço anterior da investigação –, permitiu que criminosos agissem com antecedência e evitassem a ação da justiça.
O alvo Rodrigo Bacellar e as buscas
Rodrigo Bacellar, deputado estadual pelo União Brasil, encontrou-se novamente no centro das atenções da Polícia Federal. Esta é a segunda vez que o parlamentar é diretamente atingido pela Operação Unha e Carne. Na fase inicial, Bacellar chegou a ser detido, mas foi posteriormente solto por decisão do plenário da Alerj na semana passada. Contudo, sua liberdade foi acompanhada de rigorosas medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Atualmente, Bacellar permanece afastado da presidência da Assembleia, utiliza tornozeleira eletrônica, tem horário restrito para recolhimento noturno e deve permanecer em sua residência nos fins de semana e feriados. Os novos mandados de busca e apreensão cumpridos contra ele visam aprofundar a coleta de provas e esclarecer sua eventual participação no esquema de vazamento, uma vez que sua posição de liderança no legislativo fluminense o coloca em uma posição de influência estratégica.
A prisão do desembargador Macário Júdice Neto
A maior surpresa desta fase da operação foi a prisão do desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto. O magistrado, membro do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), foi detido em sua residência, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A acusação contra o desembargador é grave: ele é suspeito de ter atuado diretamente para beneficiar o Comando Vermelho, repassando dados sigilosos de procedimentos em andamento que estavam sob sua relatoria. A prisão de um membro do Poder Judiciário em uma operação dessa natureza ressalta a seriedade das evidências coletadas pela Polícia Federal e lança uma sombra sobre a integridade das instituições, especialmente quando se trata de crimes que envolvem a segurança pública e o combate ao crime organizado.
O histórico controverso do desembargador
A trajetória de Macário Júdice Neto, que retornou ao TRF-2 em 2023 após um afastamento de 17 anos da magistratura, é marcada por controvérsias e processos judiciais e administrativos. Sua reintegração à corte em 2023 gerou debates nos meios jurídicos, e agora, as novas acusações o colocam novamente no centro de um escândalo, desta vez com implicações ainda mais severas.
Conexão com Thiego Raimundo dos Santos (TH Joias)
A investigação que levou à prisão do desembargador aponta para sua atuação como relator em um processo envolvendo Thiego Raimundo dos Santos, conhecido como TH Joias. TH Joias é um ex-deputado estadual que foi preso sob acusação de ter ligação direta com o Comando Vermelho. Segundo as investigações, Macário Júdice Neto teria utilizado sua posição para repassar informações confidenciais sobre o caso de TH Joias e outros procedimentos, permitindo que a facção criminosa se antecipasse às ações da justiça. Essa conexão direta entre um magistrado de alta patente, um político com ligações criminosas e uma das maiores organizações do tráfico do país revela a profundidade da infiltração investigada pela Operação Unha e Carne. A natureza das informações supostamente vazadas, que poderiam incluir mandados de prisão, operações futuras e estratégias investigativas, representa um prejuízo incalculável para o Estado no combate ao crime.
O longo afastamento e o retorno ao TRF-2
O primeiro afastamento de Macário Júdice Neto da magistratura ocorreu em 2005. Naquela ocasião, ele foi alvo de uma ação penal que investigava uma suposta venda de sentenças, associada à máfia dos caça-níqueis no Espírito Santo. Embora tenha sido absolvido das acusações criminais em 2015, o magistrado permaneceu fora do cargo devido a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) que tratava das mesmas alegações.
Em 2022, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) proferiu uma decisão crucial, julgando que o PAD havia extrapolado o tempo máximo legal para sua conclusão e, por isso, determinou o retorno de Macário Júdice Neto à sua função. No entanto, mesmo após essa decisão, outro afastamento, este por improbidade administrativa, ainda estava vigente. Após superar esse último obstáculo burocrático, em maio de 2023, o presidente do TRF-2, com base na lista de antiguidade da corte, encaminhou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação de Macário para assumir o posto de desembargador federal. Ele tomou posse em uma cerimônia no gabinete da Presidência do tribunal, marcando seu retorno efetivo à magistratura após quase duas décadas. Este histórico complexo e o recente retorno ao cargo adicionam uma camada de gravidade à sua prisão atual, reacendendo questionamentos sobre os critérios de reintegração e a blindagem de certas figuras públicas.
Os impactos e próximos passos da Operação
A Operação Unha e Carne, em sua segunda fase, evidencia a grave ameaça que o crime organizado representa para as instituições brasileiras. As prisões e buscas desta etapa reforçam a necessidade de vigilância constante e de mecanismos eficazes de combate à corrupção e à infiltração criminosa nos poderes Legislativo e Judiciário. A investigação deve prosseguir com a análise do material apreendido, oitivas e aprofundamento das provas para determinar a extensão das responsabilidades e as conexões entre os envolvidos. A sociedade aguarda desdobramentos que possam restaurar a confiança na integridade das instituições e garantir que a justiça seja aplicada de forma plena, independentemente da posição social ou política dos investigados.
Fonte: https://oglobo.globo.com