(Bloomberg) — Donald Trump impôs mais tarifas do que qualquer presidente americano em pelo menos um século — mas apenas uma fração daquelas que ele ameaçou.
A retirada, nesta semana, de uma tarifa proposta contra países europeus por causa da Groenlândia é o exemplo mais recente de como Trump às vezes empunha a arma tarifária sem dispará-la. E o número de ameaças não concretizadas só aumenta.
Até agora, o presidente não aplicou as tarifas amplas que prometeu a países como México e Canadá, nem sobre produtos como semicondutores e filmes estrangeiros. As chamadas “tarifas secundárias” para países que negociam com adversários dos EUA — mais recentemente o Irã — também ainda não se materializaram.
Trump afirma que sua disposição de usar tarifas ajudou os EUA a obter concessões comerciais, acesso a minerais críticos e a resolver conflitos ao redor do mundo. É uma estratégia de negociação em que até a ameaça gera poder de barganha. Mas há sinais de que as contrapartes estão se acostumando a suas manobras — o que pode torná-las menos eficazes.
“Há claramente um problema de credibilidade que o governo tem com qualquer um com quem esteja negociando”, disse Tim Meyer, professor da Escola de Direito da Universidade Duke, especializado em comércio internacional. “Outros países já leram o manual. Você deixa ele anunciar um acordo e espera que o assunto desapareça.”
“Quando amigos apertam as mãos”
Alguns dos recuos de Trump vieram depois que seus alvos ameaçaram retaliar — em especial a China. O presidente elevou tarifas a níveis de três dígitos, mas recuou em grande parte após Pequim dizer que bloquearia exportações de terras raras cruciais.
O potencial de retaliação foi um dos elementos da saga da Groenlândia que se desenrolou este mês. Trump prometeu impor tarifas sobre produtos de países europeus que se opuseram à sua pretensão sobre o território autônomo dinamarquês, dizendo que começariam em 10% em 1º de fevereiro e subiriam para 25% em junho, a menos que fosse alcançado um acordo “para a compra Completa e Total da Groenlândia”.
Suas palavras duras causaram irritação e consternação entre os aliados dos EUA na União Europeia, que haviam negociado um acordo comercial com Washington no ano passado e agora diziam que iriam suspender sua aprovação. “Na política como nos negócios, um acordo é um acordo”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. “Quando amigos apertam as mãos, isso precisa significar alguma coisa.”
Segundo o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, é a Europa que não cumpriu sua parte.
“A UE falhou em implementar seus compromissos”, apesar dos rápidos movimentos dos EUA para reduzir suas próprias tarifas, disse Greer em comunicado. Os EUA e a UE têm “uma série de questões de política externa e econômica que vão além dos quatro cantos do acordo”, afirmou. “Se os Estados Unidos conseguem compartimentar assuntos importantes, porém não relacionados, a UE não deveria usá-los como desculpa para descumprir.”
Líderes europeus aventaram outras medidas em resposta. Muitos receberam Trump friamente quando ele discursou na quarta-feira no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.
Logo depois, Trump anunciou um acordo que aparentemente reduziu as tensões, embora os detalhes não estejam totalmente claros. Na quinta-feira, o presidente prometeu revelar mais sobre o arcabouço — mas talvez só daqui a semanas.
“Acho que, neste momento, a Europa está respirando aliviada”, disse Josh Lipsky, diretor de economia internacional do Atlantic Council, think tank em Washington. “Eles se mantiveram firmes, montaram um pacote de retaliação.”
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“Para quem duvida”
A reação nos mercados financeiros também pode ter pesado — como em episódios anteriores em que Trump recuou.
As ações e os títulos do Tesouro dos EUA despencaram no começo desta semana, conforme o confronto sobre a Groenlândia se intensificava, e depois se recuperaram com o anúncio do acordo. Foi um eco das chamadas tarifas “recíprocas” originais, que Trump lançou em abril com grande alarde, apenas para rapidamente colocá-las em pausa diante da turbulência nos mercados.
Desde então, o presidente recuou em tantas ameaças que investidores e mercados passaram a incorporar essa probabilidade em suas projeções. O padrão ganhou até apelido: a “TACO trade” — sigla em inglês para “Trump Always Chickens Out” (Trump sempre arrega).
Questionada sobre o rótulo, a Casa Branca apontou para operações militares americanas como a captura do presidente da Venezuela e o bombardeio de instalações nucleares iranianas. “Quem duvida da disposição do presidente Trump de bancar o que diz quando outros se recusam a fechar um acordo deveria perguntar a Nicolás Maduro ou ao Irã o que eles acham”, disse o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai.
Trump pode citar uma série de acordos comerciais com grandes economias, da Europa ao Japão e à Coreia do Sul, fechados em seu primeiro ano de volta ao cargo. Alguns vieram com promessas de investimento, embora ainda não detalhadas. O presidente diz que sua política protecionista ajudará a reviver a manufatura nos EUA, e as tarifas também vêm gerando receita para o governo — outro objetivo declarado — na ordem de US$ 30 bilhões por mês.
Outro ponto a favor de Trump é que suas novas tarifas de importação não elevaram os preços para o consumidor americano tanto quanto alguns analistas previam. Em parte, porque as tarifas efetivas não são tão altas quanto as anunciadas.
Além de revogar ou abandonar planos tarifários, o governo concedeu muitas isenções. Um estudo recente, coassinado pela economista de Harvard Gita Gopinath, constatou que a alíquota efetiva sobre importações dos EUA em setembro era apenas metade da alíquota legal.
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“A Rolex veio me ver”
Algumas ameaças tarifárias simplesmente ficaram no ar. Por ora, essa categoria inclui a promessa recente de Trump de impor uma tarifa de 25% a países que façam negócios com o Irã, medida desenhada para pressionar o governo em Teerã após a repressão a protestos. A Casa Branca ainda não divulgou detalhes adicionais sobre a proposta. No voo de volta de Davos, na quinta-feira à noite, o presidente disse a repórteres que a medida viria “muito em breve”.
Esse é um exemplo de “tarifa secundária”, em que a pressão é aplicada não diretamente sobre o país-alvo, mas sobre seus parceiros comerciais — instrumento que se credita a Trump, mas que ele ainda não conseguiu usar de fato. Em alguns momentos, ele ameaçou usá-lo contra Venezuela e Rússia também. Mas, em todos os casos, isso traz o risco de prejudicar as próprias relações comerciais dos EUA e conversas delicadas sobre tarifas, inclusive com grandes economias como China e Índia.
Em Davos, nesta semana, Trump deu ao público um exemplo de como usou o comércio como porrete contra a Suíça, país anfitrião, após um telefonema tenso com sua líder.
“Ela simplesmente me irritou, para ser honesto com vocês”, disse o presidente. Então ele elevou a tarifa de 30% para 39%, “e aí tudo realmente explodiu. E eu passei a receber visitas de todo mundo. A Rolex veio me ver. Todos vieram me ver.”
É uma abordagem que pode ter de mudar um pouco se a Suprema Corte decidir que Trump não tem autoridade para usar poderes de emergência para impor tarifas, como vem fazendo. Nesse caso, ele deve recorrer a outros dispositivos legais, embora nenhum tão amplo.
A volatilidade das tarifas de Trump preocupa até alguns defensores do protecionismo.
Em um texto publicado após a disputa sobre a Groenlândia, Oren Cass — que dirige o think tank conservador American Compass Institute e tem sido favorável à política comercial de Trump — alertou que as ameaças à Europa podem se voltar contra os EUA.
Em vez de restaurar a estabilidade em novos termos, “agora enfrentamos o risco de ver acordos já firmados se desfazerem”, escreveu. “Que sentido há para outro país sentar à mesa e negociar comércio, em resposta a tarifas, se pode esperar ser atingido novamente pelas mesmas tarifas mesmo depois de resolver disputas razoáveis?”
Mas Trump apresenta o episódio da Groenlândia como a prova mais recente de que suas táticas funcionam — o que significa que europeus e outros provavelmente devem se preparar para mais ameaças, segundo Lipsky, do Atlantic Council.
“Eles podem acordar daqui a uma semana e ele dizer que a tarifa voltou”, afirmou. “Todo mundo vive com essa possibilidade.”
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