O Dia de Iemanjá, comemorado anualmente em 2 de fevereiro por comunidades de matriz africana, foi oficialmente integrado ao Calendário Cultural do Tocantins e é celebrado em Palmas com o projeto "Águas de Iemanjá". Esta iniciativa, parte do Primeiro Festival Cultural e de Geração de Renda e Festividades do Terceiro Presente de Iemanjá do Estado, visa valorizar a cultura afro-brasileira e promover a liberdade religiosa através de ações culturais, oficinas formativas, diálogo inter-religioso e uma celebração pública nas águas do Rio Tocantins.
Programação Cultural e Geração de Renda
O projeto "Águas de Iemanjá" teve início em 21 de janeiro, data que marca o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, estendendo-se até 28 de fevereiro. No Terreiro de Candomblé Ilê Odé Oyá, em Palmas, são realizadas oficinas focadas na valorização dos saberes tradicionais e na geração de trabalho e renda. As atividades incluem ensino de ritmos, cantigas e danças de terreiro, gastronomia afro-brasileira e confecção de roupas tradicionais.
Em 22 de fevereiro, o mesmo espaço sediou a Roda de Conversa com Sacerdotes e Sacerdotisas, um evento que reuniu líderes de casas de matriz africana do Tocantins, São Paulo e Goiás para promover o intercâmbio de conhecimentos e o diálogo religioso.
A culminância do projeto está agendada para 28 de fevereiro, com o "Terceiro Presente de Iemanjá". A programação para este dia inclui uma alvorada no terreiro, uma procissão em carreata que se dirige até a Praia da Graciosa e uma grande celebração cultural às margens do Rio Tocantins. O evento contará com rituais, manifestações afro-brasileiras, apresentações culturais e a tradicional entrega dos presentes de Iemanjá nas águas do rio.
Reconhecimento Institucional e Depoimentos
A Festa de Iemanjá passa a integrar oficialmente o Calendário Cultural do Estado do Tocantins a partir deste ano, resultado de um processo que inclui análise técnica realizada pela Secretaria de Estado da Cultura ao longo de 2025 para plena integração em 2026. O Babalorixá William Vieira de Oliveira, coordenador geral do projeto e dirigente espiritual do Ilê Odé Oyá, destacou o caráter amplo da iniciativa: “O projeto é um gesto coletivo de resistência e afirmação cultural. Celebrar Iemanjá é lutar pelo direito à fé, à memória e à dignidade dos povos de terreiro”.
Mãe Cleusa de Oyá, sacerdotisa dirigente da Tenda de Umbanda Cabocla Yara e Caboclo Boiadeiro, em Santa Rosa do Tocantins, expressou a significância da inclusão oficial para a comunidade: “Celebrar Iemanjá de forma oficial é muito gratificante. Durante muitos anos enfrentamos preconceito e intolerância. Hoje, essa data simboliza a nossa fé, a nossa cultura e o fortalecimento do nosso povo”.
O presidente do Conselho de Políticas Culturais do Tocantins, Elpídio de Paula Neto, apontou a relevância da festividade para a identidade cultural do estado. Segundo ele, “Os festejos realizados em espaços públicos fortalecem a visibilidade, o respeito e o direito de manifestação da fé dos povos de terreiro, promovendo unidade e diálogo com a sociedade”.
Contexto Histórico e Simbolismo da Data
A celebração do Dia de Iemanjá em 2 de fevereiro marca tradicionalmente o início do ciclo das águas e da abundância em diversas culturas, conferindo-lhe um caráter simbólico para pedidos de proteção, prosperidade e renovação espiritual.
Embora o culto a Iemanjá possua origens ancestrais, o reconhecimento institucional da data no Brasil ocorreu de forma gradual. O fortalecimento dos movimentos de valorização da cultura afro-brasileira e a luta pela liberdade religiosa ao longo do século XX foram decisivos para que a celebração, hoje amplamente difundida em diferentes estados brasileiros, integrasse calendários culturais oficiais, como acontece agora no Tocantins.