Direita busca eficiência para avançar no Nordeste político

Lula Marques/Agência Brasil

O Nordeste brasileiro, historicamente um baluarte para candidaturas alinhadas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, continua a ser um campo de batalha eleitoral decisivo para a disputa presidencial. Sua vasta quantidade de eleitores desempenha um papel fundamental na definição dos rumos políticos do país. Embora a influência do “lulismo” represente uma barreira simbólica e concreta, especialistas em ciência política apontam que a direita ainda possui potencial para conquistar fatias do eleitorado nordestino. Contudo, essa empreitada exige uma profunda reinvenção estratégica, especialmente diante da ausência de Jair Bolsonaro nas eleições de 2026. A capacidade de desenvolver propostas que dialoguem com as realidades locais e um alto grau de eficiência na execução dessas campanhas serão cruciais para qualquer avanço significativo.

Cenário político nordestino: desafios e oportunidades para a direita

A complexidade do eleitorado nordestino é um tema recorrente nas análises políticas. Para a doutora em Ciência Política Luciana Santana, mesmo com o favoritismo consolidado pelo presidente Lula ao longo de sua trajetória, “espaço sempre há” para outras forças políticas. Ela ressalta que reverter a ampla vantagem de Lula na região, especialmente em pleitos presidenciais, é uma tarefa árdua. Entretanto, a dinâmica muda consideravelmente quando o foco se volta para as disputas por governos estaduais.

O legado do lulismo e a autonomia do eleitor

O fenômeno do “lulismo” no Nordeste não se limita apenas à figura do ex-presidente, mas abrange um conjunto de políticas sociais e investimentos estruturais que transformaram a vida de milhões de pessoas na região a partir de 2002. Essa profunda conexão gerou uma lealdade eleitoral robusta, tornando o Nordeste um pilar fundamental para as vitórias do Partido dos Trabalhadores (PT) em nível federal. Contudo, Luciana Santana destaca que o comportamento do eleitor não segue uma coerência ideológica rígida ao eleger representantes em diferentes esferas. Eleitores podem apoiar um presidente de um partido e um governador ou prefeito de outro, demonstrando uma maior autonomia em contextos locais. É nesse vácuo que a direita enxerga suas maiores oportunidades. “Para conquistar governos estaduais, talvez essa seja uma estratégia mais palpável, considerando os recursos que os partidos concentram”, afirma Santana. A cientista política enfatiza que a direita tem a chance, mas precisa de eficiência, algo que, segundo ela, “não tem tido: a eficiência necessária para se realocar e vencer uma eleição.”

Dados recentes corroboram a força do lulismo em nível presidencial. Uma pesquisa Real Time Big Data, por exemplo, demonstrou que o presidente Lula lidera com ampla vantagem as intenções de voto no Nordeste em cenários testados para 2026, com 51% das intenções, contra 11% do segundo colocado, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Essa supremacia, no entanto, não se replica automaticamente nas eleições para governador, abrindo margem para uma polarização mais intensa nos estados.

Disputas estaduais estratégicas e a relevância econômica

Se em pleitos presidenciais o Nordeste frequentemente compensa eventuais perdas no Sudeste para o campo progressista, as disputas estaduais tendem a equalizar a competitividade entre as regiões, ampliando o peso das grandes capitais nordestinas no tabuleiro eleitoral. A autonomia do eleitorado em decidir sobre o executivo estadual, dissociada por vezes da preferência presidencial, é um fator crucial.

Exemplos regionais e foco na nova economia do Nordeste

A projeção de votos para governadores em estados-chave reforça esse cenário de intensa disputa. Na Bahia, por exemplo, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), e o atual governador Jerônimo Rodrigues (PT) aparecem em empate técnico nas intenções de voto, revivendo a polarização observada em 2022. Uma pesquisa Real Time Big Data, divulgada em novembro, mostrava ACM Neto com 44% das intenções, contra 35% de Jerônimo Rodrigues. Este resultado na Bahia é particularmente estratégico, pois pode significar tanto a manutenção do alinhamento ao governo federal quanto uma guinada para o campo da direita, tornando o estado um dos mais decisivos de 2026.

Outro exemplo significativo é Alagoas, onde o embate entre Renan Filho (MDB), ministro do governo Lula, e JHC (PL) se configura como uma disputa direta entre governo e oposição. Um levantamento do instituto Paraná Pesquisas, divulgado em dezembro, indicou JHC com 47,6% das intenções de voto, superando Renan Filho, que registrava 40,9%. Esses casos ilustram a tese de Luciana Santana de que “precisamos entender as eleições de forma separada”, e que “o comportamento do eleitor não tem essa coerência de eleger prefeitos, governadores e presidentes com o mesmo perfil ideológico.”

Além das estratégias políticas tradicionais, a cientista política aponta um “ponto-chave” a ser explorado pelas candidaturas que almejam sucesso no Nordeste: o novo dinamismo econômico da região. Com a consolidação do Consórcio Nordeste e o estabelecimento de novas parcerias internacionais, a região avança rapidamente para se tornar um polo tecnológico e de transição energética limpa no país. Luciana Santana alerta que “será um erro muito grande para candidaturas que não aproveitarem essa oportunidade,” especialmente para aqueles com ideologia mais à direita, que têm encontrado dificuldades em alterar o comportamento desse eleitor. Para conquistar esse eleitorado, será imperativo “incorporar essa realidade em propostas de campanha que avancem nesse projeto de crescimento, ao mesmo tempo em que diminuam as assimetrias regionais.”

O contraste ideológico entre Nordeste e Norte

Se o Nordeste é frequentemente considerado o fiel da balança nas eleições presidenciais, o Norte, em certa medida, tem atuado como um contraponto ideológico, especialmente para o bolsonarismo, buscando equilibrar o jogo político. Ambas as regiões compartilham características como as maiores taxas de pobreza do país e proximidade territorial, o que torna ainda mais intrigante o afastamento ideológico tão antagônico.

Formação política e perfis eleitorais distintos

Luciana Santana oferece uma explicação para essa divergência. Apesar das semelhanças econômicas em certas medidas, é fundamental compreender a formação política dos estados e como sutis diferenças territoriais, como o isolamento entre capitais, potencializam a criação de perfis eleitorais distintos. O processo de formação das lideranças no Nordeste, com exceção do Pará, esteve inicialmente vinculado a elites conservadoras. “O Nordeste era conservador, mas a partir de 2002, com os investimentos não apenas na área assistencial, mas também estrutural, feitos por gestões petistas, esse eleitorado pôde avaliar as questões a partir de uma vivência diferente,” explica a cientista política. Essa influência transformadora, segundo ela, não se replicou na mesma intensidade na Região Norte. “Nessa região, tivemos a expansão do evangélico e de oligarquias armamentistas. Esse conservadorismo hoje é muito difícil de ser rompido,” analisa Santana, apontando para as raízes profundas de um conservadorismo que resiste mais às mudanças ideológicas.

Cenário futuro e estratégias adaptativas

O Nordeste permanece como um palco eleitoral de vital importância para o cenário político brasileiro. Embora a lealdade ao “lulismo” continue sendo um fator preponderante em nível presidencial, as disputas estaduais revelam um eleitorado mais flexível e pragmático. A direita tem uma janela de oportunidade, mas seu sucesso dependerá de uma profunda capacidade de adaptação. Será necessário ir além da retórica ideológica e apresentar propostas eficientes e localizadas que dialoguem com as aspirações de desenvolvimento econômico e social da região. A integração de temas como tecnologia, transição energética e redução de assimetrias regionais será crucial para conquistar o eleitorado, que demonstra cada vez mais discernimento entre as eleições para diferentes cargos. A reinvenção estratégica, baseada na eficiência e no entendimento das particularidades nordestinas, será o diferencial para as forças políticas que almejam expandir sua influência na região.

 

Fonte: https://www.infomoney.com.br

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