Lucas Barbosa e Souza, docente titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e especialista em climatologia geográfica e planejamento urbano, alertou em entrevista recente ao Jornal Opção Tocantins que as cidades do estado não estão preparadas para lidar com o crescente número de desastres ambientais. A análise do pesquisador destaca a intensificação de eventos climáticos extremos, como chuvas recorde e estiagens prolongadas, combinada à vulnerabilidade da infraestrutura urbana, resultando em cenários de risco para a população e o abastecimento de água.
Cenário Climático em Transformação e Eventos Extremos
O professor Lucas Barbosa e Souza ressalta que as transformações climáticas são graduais e complexas, demandando décadas de dados para serem plenamente confirmadas. Contudo, ele aponta que tendências claras já são observáveis não apenas no Tocantins, mas em todo o Cerrado e globalmente. Segundo o especialista, tem ocorrido um aumento na frequência de eventos climáticos mais intensos, com recordes de chuva sendo sistematicamente superados nas últimas décadas. Ele exemplifica que uma chuva de 150 milímetros, já registrada em Palmas e Porto Nacional, representa 150 litros de água por metro quadrado, um volume considerável.
Eventos extremos similares são observados em diversas regiões, incluindo a Amazônia e o litoral brasileiro, como o desastre em Bertioga, São Paulo, onde se registrou mais de 600 milímetros de chuva em um único dia. Barbosa e Souza menciona que alguns cientistas classificam o período atual como uma 'zona desconhecida' em termos climáticos. No Tocantins e no Cerrado, as mudanças no regime de chuvas incluem o atraso do início do período chuvoso, geralmente em outubro e novembro, e uma possível extensão das precipitações até abril e maio. No entanto, essa extensão não compensa o volume de água perdido no início da estação.
Apesar de uma leve tendência de redução no volume total anual de chuvas em algumas áreas, o que predomina é a ocorrência de chuvas mais concentradas e intensas, intercaladas por períodos mais longos de estiagem. Essa dinâmica gera dois problemas críticos: a prolongada escassez hídrica, que causa falta de água, e as chuvas intensas em curtos períodos, que provocam enxurradas, inundações e outros desastres.
Vulnerabilidade Urbana e Impactos na Infraestrutura
O docente da UFT correlaciona o aumento dos desastres com a forma como as cidades são construídas, o que as torna mais vulneráveis. A combinação de uma infraestrutura urbana menos resiliente com chuvas mais intensas resulta em um cenário negativo, evidenciado por problemas como a queda de pontes e falhas em sistemas de drenagem e solo, especialmente em Palmas. A população tem recebido alertas da Defesa Civil com maior frequência, o que impacta diretamente a percepção de risco.
No que tange ao abastecimento hídrico, a prolongada estiagem dificulta a reposição de água nos mananciais. Em Palmas, apesar do grande volume do rio Tocantins, as fontes tradicionais de abastecimento provêm da serra, de cursos d'água menores, como os da região de Taquaruçu. Esses mananciais menores frequentemente não conseguem suprir a demanda durante o período seco, o que pode levar à necessidade de utilizar água de reservatórios, cuja qualidade pode ser inferior à das fontes naturais da serra.
Experiência e Pesquisa do Especialista
Lucas Barbosa e Souza possui uma sólida formação acadêmica e profissional. Ele é bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com mestrado e doutorado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) na área de análise da informação espacial, e realizou pós-doutorado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Ingressou na UFT em 2004, onde atua nos cursos de Geografia (bacharelado e licenciatura) no campus de Porto Nacional, e no programa de pós-graduação em Geografia. Por 15 anos, também contribuiu com o programa de pós-graduação em Ciências do Ambiente.
Com mais de duas décadas dedicadas ao ensino, pesquisa e extensão, seus estudos concentram-se em climatologia geográfica, percepção ambiental e planejamento urbano, com foco nas dinâmicas climáticas do Tocantins e suas implicações socioambientais. Sua trajetória inclui participação em projetos sobre expansão urbana, riscos ambientais e impactos do agronegócio no Cerrado, além de ter atuado em instâncias de gestão, como o Conselho Municipal de Defesa Civil de Porto Nacional, o que reforça sua expertise prática na gestão de riscos.