Palmas: partos de baixo risco sobrecarregam rede obstétrica e atrasam urgências

Montagem Jornal Sou de Palmas.

A principal unidade de referência em obstetrícia do Tocantins, localizada em Palmas, tem enfrentado um cenário de sobrecarga crescente no atendimento a gestantes. O Hospital e Maternidade Dona Regina (HMDR), responsável por casos de alta complexidade, tem registrado um volume significativo de internações que, na realidade, poderiam ser gerenciadas e resolvidas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Esse fluxo inadequado compromete severamente a capacidade da unidade de atender a pacientes em situações de risco real, criando um gargalo que coloca em xeque a eficiência da rede obstétrica de Palmas e do estado. A concentração desproporcional de partos e procedimentos de baixo risco na capital impede que o HMDR foque em sua missão primordial: oferecer cuidados especializados e salvar vidas de mães e bebês com complicações.

A sobrecarga na principal referência obstétrica do Tocantins

A capital tocantinense, Palmas, tem se tornado o epicentro de uma preocupante situação na saúde materno-infantil. A cidade concentra aproximadamente 80% dos atendimentos obstétricos do estado, uma estatística que, à primeira vista, pode parecer um indicativo de centralização de recursos, mas que, na prática, revela uma grave distorção na distribuição e utilização dos serviços. Essa alta concentração não se deve apenas à população da capital, mas a um fluxo desordenado de pacientes de diversas regiões que buscam atendimento em Palmas, inclusive para casos que demandam baixa complexidade.

O dilema do Hospital e Maternidade Dona Regina (HMDR)

O Hospital e Maternidade Dona Regina (HMDR) é a espinha dorsal da assistência obstétrica de alta complexidade no Tocantins. Sua estrutura e equipe são dimensionadas para lidar com gestações de risco, partos complicados e emergências que exigem intervenção especializada. Contudo, dados recentes apontam que a maior parte das internações obstétricas realizadas pela unidade refere-se a gestações de baixo risco, que poderiam, e deveriam, ser acompanhadas e concluídas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) dos municípios de origem ou mesmo em maternidades de menor porte na região metropolitana ou interior. Esse desvio de finalidade sobrecarrega a equipe médica e de enfermagem, ocupa leitos de UTI Neonatal e de adultos desnecessariamente, e consome recursos que poderiam ser direcionados para os casos mais graves. A situação é agravada pela falta de clareza nos protocolos de referência e contrarreferência, que deveriam guiar as gestantes para o nível de atenção adequado às suas necessidades. O excesso de pacientes de baixo risco diminui o tempo de dedicação dos profissionais aos casos realmente complexos e aumenta o risco de erros ou falhas na comunicação devido à exaustão da equipe.

A concentração de atendimentos em Palmas

A concentração de 80% dos atendimentos obstétricos em Palmas é um reflexo de múltiplos fatores. Primeiramente, há uma percepção generalizada de que os melhores serviços de saúde estão na capital, o que incentiva o deslocamento de gestantes, mesmo as de baixo risco. Em segundo lugar, pode haver lacunas na oferta de serviços de atenção primária e secundária em outras localidades, forçando o encaminhamento para a capital. Essa centralização excessiva gera filas e tempos de espera prolongados no HMDR, desvirtuando sua função de hospital de referência. Pacientes de municípios distantes que poderiam ter seu parto em uma UBS local acabam se deslocando por centenas de quilômetros, aumentando o risco de complicações durante a viagem e sobrecarregando a estrutura de acolhimento em Palmas. A ausência de uma rede regionalizada e hierarquizada eficaz é um dos grandes desafios a serem superados para desafogar a capital e garantir que cada gestante receba o cuidado certo, no lugar certo e no momento certo.

Impactos e desafios na atenção à gestante

A ineficiência do fluxo de atendimento e a sobrecarga da rede obstétrica em Palmas geram consequências diretas e severas, especialmente para as gestantes que realmente necessitam de cuidados de alta complexidade. A desorganização impede que o sistema opere em sua plenitude, prejudicando a qualidade da assistência e colocando vidas em risco. É fundamental compreender os impactos dessa situação e os desafios inerentes à busca por uma solução duradoura e eficaz.

Gestantes de risco: prioridades em espera

O efeito mais crítico da sobrecarga da HMDR é o atraso no atendimento a gestantes de alto risco. Mulheres com condições como hipertensão gestacional, diabetes, pré-eclâmpsia, gestações múltiplas, histórico de partos prematuros ou outras intercorrências que exigem monitoramento contínuo e intervenção especializada, são frequentemente compelidas a aguardar por mais tempo do que o ideal. Esse tempo de espera pode ser determinante para o desfecho da gravidez, aumentando o risco de complicações graves para a mãe e o bebê, como sofrimento fetal, hemorragias, sepse e até mesmo óbito. Em casos extremos, a ausência de leitos ou a falta de equipes disponíveis devido ao excesso de demandas de baixo risco pode levar à necessidade de transferências emergenciais para outras unidades, muitas vezes em condições precárias ou para hospitais fora do estado, elevando ainda mais o risco e a dificuldade de acesso. A priorização do atendimento é um pilar da saúde pública, e sua falha nessa área é um indicativo de uma fragilidade sistêmica que precisa ser corrigida com urgência.

O papel da atenção primária e a necessidade de reestruturação

Para reverter o cenário atual, a reestruturação e o fortalecimento da atenção primária à saúde (APS) e da rede de atenção secundária são imperativos. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) são a porta de entrada para a maioria das gestantes e deveriam ser capazes de acompanhar a gravidez de baixo risco do início ao fim, incluindo a realização do parto. Isso exige não apenas infraestrutura adequada nas UBS e nas maternidades de menor porte nos municípios do interior, mas também equipes completas e capacitadas, com médicos, enfermeiros, técnicos e outros profissionais aptos a identificar riscos, orientar as gestantes e realizar partos normais.

É crucial implementar protocolos claros de estratificação de risco, garantindo que apenas gestantes com intercorrências reais sejam encaminhadas para unidades de alta complexidade como o HMDR. Campanhas de conscientização para a população sobre a importância de buscar a UBS mais próxima para o acompanhamento pré-natal de rotina e a realização de partos de baixo risco também são essenciais. Além disso, é fundamental que o sistema de referência e contrarreferência funcione de maneira eficiente, permitindo que as gestantes transitem entre os diferentes níveis de atenção de acordo com suas necessidades, sem perder a continuidade do cuidado. Investimentos em telemedicina e em tecnologias que facilitem a comunicação entre os diferentes níveis de atenção podem otimizar esse processo.

 

Fonte: https://soudepalmas.com.br

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