Trump chega a Davos escalando tensão com UE e em ofensiva tarifária por Groenlândia

Donald Trump sempre se coloca no centro do palco quando viaja ao exterior, mas o presidente dos Estados Unidos fez questão de garantir que sua incursão a Davos nesta semana fosse particularmente dramática.

Ele preparou a visita ao Fórum Econômico Mundial, na Suíça, sacudindo novamente os alicerces tanto da União Europeia quanto da aliança da Otan e prometendo uma enxurrada de novas tarifas ligadas às suas ambições sobre a Groenlândia, atropelando acordos que já havia fechado com a União Europeia e o Reino Unido.

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O presidente americano há muito tempo reclama sobre a Europa, retratando repetidamente o bloco, que abriga muitos dos aliados mais próximos dos EUA, como aproveitadores que abusam da generosidade americana e de seu poder militar, ao mesmo tempo em que pressionam gigantes de tecnologia dos Estados Unidos.

Líderes europeus vinham lidando com as explosões de Trump com mais tolerância durante seu segundo mandato, mas a ameaça feita no fim de semana — publicada em um post no Truth Social disparado de seu clube de golfe em West Palm Beach — ameaça reacender tensões e empurrar os europeus a medidas retaliatórias que até agora haviam evitado. Líderes da UE convocaram uma cúpula de emergência, enquanto assessores de Trump dobraram a aposta ao longo do fim de semana.

“Acredito que os europeus vão entender que o melhor resultado é os EUA manterem ou passarem a ter o controle da Groenlândia”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que acompanhará Trump em Davos, ao programa Meet the Press, da NBC. Segundo ele, o controle direto dos EUA sobre um território que o país já é obrigado a defender aumentaria o poder de dissuasão. “Somos o país mais forte do mundo. Os europeus projetam fraqueza; os EUA projetam força.”

Agora, em vez de visitar Bruxelas ou Copenhague, Trump segue para os Alpes para um dos encontros emblemáticos da ordem econômica global — uma visita que ocorre enquanto ele redireciona a atenção dos EUA para longe de sistemas multilaterais e alianças de longo prazo e em direção a fóruns alternativos, incluindo seu Conselho da Paz, que começa a tomar forma com um mandato mais amplo e vem despertando preocupação entre outros líderes mundiais.

Esta será a terceira viagem de Trump a Davos como presidente e ocorre após ele ter discursado virtualmente no evento no ano passado, poucos dias depois do início de seu segundo mandato.

Naquela ocasião, ele foi rápido em expor suas queixas transatlânticas. “Do ponto de vista da América, a UE nos trata de forma muito, muito injusta, muito mal”, disse, em um discurso que reclamava de impostos, tarifas e regulações. “Estou tentando ser construtivo, porque amo a Europa.”

Trump prometeu então uma “revolução do bom senso”. Desde então, seu governo muitas vezes esteve longe do senso comum, aplicando tarifas de forma ampla, inclusive contra a Europa, e oscilando sobre a força do apoio dos EUA à Ucrânia, uma guerra que Trump disse acreditar que seria mais fácil de encerrar.

Desta vez, Trump deve detalhar sua agenda de habitação popular, ao tomar medidas para reforçar seu apoio antes das eleições legislativas deste ano.

Ainda assim, sua mais recente retórica sobre a Groenlândia rompe uma frágil trégua comercial que havia se instalado entre Washington e capitais europeias após os acordos com a UE e o Reino Unido no ano passado.

A ameaça feita por Trump no sábado de impor tarifas de 10% ao Reino Unido e a sete países europeus no próximo mês, como forma de pressão relacionada à Groenlândia, ameaça elevar as alíquotas acordadas e levou o presidente francês, Emmanuel Macron, a se mover para acionar a maior contramedida comercial da UE. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse em uma ligação telefônica com Trump no domingo que a ameaça tarifária era “errada”.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, ideologicamente próxima de Trump, afirmou que falou com o presidente e tentou persuadi-lo a reduzir a escalada.

“Precisamos retomar o diálogo, evitar uma escalada, e é nisso que estou trabalhando”, disse ela a repórteres em Seul. Trump, acrescentou, estava “interessado em ouvir, mas, do ponto de vista dos EUA, me parece que a mensagem deste lado do Atlântico não havia sido clara”.

O ex-vice-presidente de Trump também pediu que ele mudasse de postura.

“Acredito que a postura atual, que espero que mude e arrefeça, ameaça fraturar essa relação forte, não apenas com a Dinamarca, mas com todos os nossos aliados da Otan”, disse Mike Pence no programa State of the Union, da CNN, no domingo, acrescentando que, ainda assim, apoia o objetivo de adquirir a Groenlândia.

As tarifas podem não entrar em vigor. A Casa Branca se recusou durante todo o fim de semana a dizer qual base legal seria usada. Elas podem acabar sendo aplicadas com base em uma autoridade que a Suprema Corte pode estar prestes a limitar ou derrubar. O diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, disse no domingo que não havia sido informado sobre os fundamentos legais das tarifas, mas caracterizou a medida como uma estratégia de barganha.

“O presidente é a pessoa que escreveu A Arte da Negociação porque é muito bom em fechar acordos. Então, acho que agora é realmente um bom momento para que prevaleça a cautela e para que deixemos de lado a retórica, sentemos à mesa e vejamos se não é possível chegar a um acordo que seja o melhor para todos”, disse Hassett ao programa The Sunday Briefing, da Fox News.

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